Amar a Pátria
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007

Há coisas que doem...

Grandes portugueses

“Programa da RTP”

Mário Soares, não engole, ficar em Ultimo lugar em uma lista, que SALAZAR garante o 1º Lugar após 38 anos de sua morte! Mário Soares: "Um concurso impossível, sem critérios e pouco inteligente, mas fez-se" Grandes portugueses "é impossível e pouco inteligente"



"Mário Soares atreveu-se a comentar a lista dos 10 "Grandes portugueses" divulgada pela televisão pública e criticou duramente o programa de entretenimento. É um concurso impossível, sem critérios e pouco inteligente, mas fez-se", disparou Mário Soares, anteontem à noite, durante as "Tertúlias do Casino", que decorreram na Figueira da Foz. A RTP, a "ressalarização" e o 'espectáculo abominável'

Quase 38 anos depois, agora com uma foto retocada de Salazar, um concurso chamado dos 'grandes portugueses' e um ex-realizador do Telejornal do ditador (Jaime Nogueira Pinto) mais alguns promotores empenhados, a RTP "ressalariza" o 'espectáculo abominável' que a 28 de Abril de 1969, em plena ditadura, "dessalarizou".

 Cf. o capítulo "A 'dessalarização': o 'espectáculo abominável' - declíneo e queda de Salazar", do livro Salazar, Caetano e a Televisão Portuguesa, Estampa, 1996:

 «O final desse mês (de Abril de 1969) coincidia com mais um aniversário da entrada de Salazar para o governo, a 28 de Abril. Em termos televisivos, havia de ficar marcado por uma peça (do Telejornal da RTP) que impressionaria todos os que a viram: o "Aniversário do Presidente Salazar" - um filme com 1'16" de duração, em que Salazar recebe a visita dos órgãos de informação e "profere uma breve mensagem de saudação e agradecimento". Mário Soares exprimiu-se assim sobre esse documento: "(...) Até que Caetano o apresentou na televisão, espécie de cadáver empalhado, a soletrar uns agradecimentos de circunstância. Então acabou-se o 'mito' " (Soares, 1974:594).

«O facto de o documento filmado provocar na oposição reacções como esta, era razão suficiente para no interior do próprio regime surgirem não só sintomas de instabilidade política entre as suas diferentes sensibilidades, mas também posições de quase confronto entre salazaristas e marcelistas. Um salazarista convicto, na altura, Jaime Nogueira Pinto (1977/I:158-161) descreveu o episódio do seguinte modo: "(...) Numa noite de fim de Abril (...) pessoa amiga dera-me conta, indignada, de que no telejornal fora exibido um filme em que Salazar agradecia ao País o interesse manifestado pela sua saúde. O espectáculo era classificado de abominável. Trémulo, cadavérico, numa voz entrecortada de hesitações, o antigo presidente do Conselho oferecera àqueles que, ao longo de anos, se tinham habituado a contemplá-lo como um exemplo de determinação e energia, a imagem dum pobre velho caquético, uma espécie de morto-vivo alucinante e alucinado". E prosseguia Jaime Nogueira Pinto: "No velório de Santa Marta (referência ao funeral de Rafael Duque), onde se achavam numerosas personalidades ligadas ao regime e aos meios de informação, não se falava de outra coisa. Muitos perguntavam-se quem era o responsável pela feitura e exibição de tão degradante peça, que revelava um chefe, que merecera o respeito de amigos e inimigos, à dimensão dum farrapo humano". Segundo Nogueira Pinto, a passagem do documento deveria ter-se ficado a dever às pressões da 'entourage' salazarista: "Talvez tenham, na verdade, existido por parte do grupo de senhoras que então gravitava em volta de Salazar, pessoas sem experiência ou senso políticos, que na melhor das intenções foram não pouco responsáveis pelo miserabilismo e ridículo que rodearam a doença e convalescença do antigo presidente do Conselho. Mas o facto é que ninguém com um mínimo de lucidez e responsabilidade poderia permitir a passagem do filme, a não ser com a evidente intenção de liquidar, no público, quaisquer ilusões sobre o estado do antigo chefe do Governo".

«O episódio do filme do 'Aniversário' de Salazar chama sobretudo a atenção para as dissidências internas no seio do próprio regime e, particularmente, no seio da própria RTP. Interrogado sobre um hipotético conflito entre salazaristas e marcelistas no interior da RTP, Ramiro Valadão responder-nos-ia "desconhecer, enquanto Presidente do C. A., qualquer conflito desse tipo e caso tivesse tido conhecimento rapidamente lhe teria posto fim"... A acreditar, no entanto, no insuspeito Jaime Nogueira Pinto, tudo teria sido um pouco mais complexo, a começar com a própria nomeação de Ramiro Valadão: "(...) Era Presidente do Conselho de Administração da RTP João Duque, um nacionalista conservador, muito respeitado pela sua integridade e coerência. Com o advento de Marcello Caetano, Duque pusera o cargo à disposição do Governo. Entretanto Marcello reitera-lhe, pessoalmente, a sua confiança, insistindo para que ficasse. Mas, ao mesmo tempo, começavam a surgir para Duque, a nível superior e de serviços, certas dificuldades; e vinha a saber que enquanto lhe diziam para ficar, formulavam convites a outras personalidades para ocupar o lugar. (...) É Valadão que Marcello, apesar das advertências e conselho em contrário, vindos da sua própria 'entourage', vai chamar para dirigir o mais importante órgão de Informação do País (...)» (ib., II/156-161). Valadão não era, portanto, "personna grata" dos ultras do regime, provavelmente pelo seu dito - mas aparente liberalismo. A forma como Nogueira Pinto descreve a sua entrada na RTP é elucidativa: "Passaram a ser regra os telefonemas do nóvel presidente do C.A. para o telejornal antes da emissão, perguntando o que havia no noticiário. Informado pelo responsável, Valadão indicava, caso a caso, o tempo que teriam os ministros, que consoante o seu agrado pessoal, ou favor do chefe do Governo, eram bafejados com mais ou menos filme. Vigiava-se escrupulosamente para que fossem cumpridas as suas instruções. O que nem sempre era fácil; havia, por exemplo, determinadas personalidades que não se mostravam nem mencionavam. Paulo Rodrigues, culpado do 'exílio' de Valadão, era uma delas. Numa visita do Presidente da República a uma localidade do distrito de Leiria (pelo qual o antigo subsecretário da Presidência do Conselho era deputado), um redactor sofreu uma punição porque, no filme, se esqueceu de cortar a sua figura. Adriano Moreira, que se achava incompatibilizado com Marcello, era outro dos 'proibidos'. Como mais tarde o foram também Franco Nogueira e Kaúlza de Arriaga. Ao mesmo tempo o novo senhor do Lumiar ensaiava a 'liberalização' da sua casa, abrindo portas a intelectuais ditos 'de esquerda' (...). Os 'reaccionários' eram entretanto depurados sem aviso prévio, como sucedia a Eduardo Freitas da Costa (ibid., II/156-161)".»

«Ainda de acordo com Jaime Nogueira Pinto (op. cit.,II:156-161) num dos referidos grupos "Ramiro Valadão afirmava não ter visto previamente o filme; mas noutro, o responsável pelo teleiornal escusava-se com as ordens do Presidente do Conselho de Administração. (Aliás, segundo testemunho presencial de um redactor do teleiornal nessa época, Valadão vira o filme antes dele ir para o ar e trocara, pelo telefone, impressões com alguém que, posto a par das condições de gravação, lhe ordenara que a transmitissem"».

F. Rui Cádima

Portugal Ressuscitado editou às 10:16
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